O tédio dos Porcos
O tédio é o legado mais forçoso da existência, foi o que me disse Lúcio, que já não parece temer uma demissão. Havia pedido a ele que me desentediasse de alguma forma, e palavra que, dizendo isso, conseguiu tirar-me do tédio, enraivecendo-me. Se é forçoso chatear-me, pascácio, para que serve o dinheiro? Hein? Hein?
Mas estou entediado, que raios me partam; não me servirá ouvir árias da Zauberflote, mesmo que Lúcio se vista como Papageno; porquinhas deliciosas e seus truques não são novidade; uma roupa nova por dia, comida, champagne não me exorcisam este avantesma maçador que chamam tempo. Estou entediado e não sei se há remédio.
Talvez esteja aí a explicação para o acometimento de pauperofilia das elites intelectuais (e ponha-se aqui o sinal do coelhinho) de muitos países: Riqueza enjoa. Não há emoção alguma em ter quem lave, passe, engome, cozinhe, dirija, sirva e cante para você. Só isso daria sentido ao Glamour em que se tem envolvido a low life.
Diante disso, fica decidido: Amanhã vou cantar eu mesmo Der Vogelfanger, e cortar eu mesmo minha omelete do café da manhã. Depois, apertarei o botão do aparelho de som para ouvir uma excelente gravação que tenho aqui. Se tudo der certo, mantendo este ritmo pretendo assistir sem coceiras e calafrios alguns segundos de televisão, dentro de poucas semanas. Torçam por mim, mas sem olas, por favor.


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