O Crime é comprar, o Castigo é ler
Sobre Crime e Castigo tenho a dizer o mesmo que sobre quase todo romance do século XIX: Muita gente pobre. É constrangedor. Em geral, quando estamos mal dos bolsos, gostamos de ficar longe de tudo, não embaixo dos olhos de um leitor. Dostoievski era um indiscreto.
Acho que Crime e Castigo é algo como um antepassado temático da escola urbana. O personagem principal quer matar uma mulher e acha que é coisa fácil, mas é tão fracassado que não consegue nem fugir do remorso e evitar a confissão. Se ele realmente estivesse soprando bolinhas para a vida das pessoas menos importantes, não passaria por esse papelão.
Crime e Castigo, pelo menos nas traduções que li, é bem escrito e interessante, mas impossível de reler. Tentei, juro, mas eu tenho uma biblioteca extensa, e fica difícil se interessar por um assassino febril ao longo de trezentas páginas quando você já sabe o que vai acontecer com ele. Porfirio me parece meio imbecil na minha tradução, ele fala como um policial civil da Vila da Penha, desses que comem amendoim no estádio de futebol. Crime e Castigo seria bonzinho se houvesse pelo menos um personagem vagamente polido. Todo mundo é estúpido, mesmo a Sonia, que é boazinha, irritantemente boazinha. Se vivesse no século XX, teria apresentado programas infantis e saído nua numa revista masculina.
A única parte realmente boa do romance é o final: Quando Raskolnikoff decide pagar honestamente pelo crime que cometeu, sofre a hostilidade dos outros criminosos – como se ele fosse muito pior que eles. Os sandeus chegam perto de linchá-lo, e é aí que o mocinho quase ganha minha simpatia: Sua impassibilidade frente aos agressores é absurdamente distinta. Hannibal Lecter não faria melhor.


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